terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Assisti a "Vicky Cristina Barcelona"

Gosto muito de Woody Allen. Acabei de chegar do cinema. O filmo é ótimo. Em vez de resenhá-lo, transcrevo texto de Contardo Calligaris, embaixo do qual assino.

VICKY CRISTINA BARCELONA

Contardo Calligaris



O amor-paixão é uma tentação irresistível, é o protótipo da vida intensamente vivida

"VICKY Cristina Barcelona", de Woody Allen, estreou no Brasil na semana passada. Com muita leveza e muito bom humor, o filme me levou a pensar nos percalços da vida amorosa.
A história do verão em Barcelona de Vicky e Cristina é um pequeno tratado do amor-paixão: os espectadores terão o prazer (ou desprazer) de se reconhecer em algum lugar do leque de experiências amorosas que o filme apresenta -é um leque pequeno, mas do qual escapamos pouco. Sem resumir, eis umas notas:

1) Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -com faca, revólver ou qualquer outro instrumento (cf. Juan Antonio e Maria Emilia). É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível (cf. Cristina, Vicky, Judy) por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida.

2) Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos "interessantes" e menos fatais -relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark). Não seria tão mal, salvo pelo detalhe seguinte: em geral, nesses casais "normais", ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: "O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar..."

Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (as más línguas diriam, aliás, que é mais fácil idealizá-la sem tê-la vivido em momento algum).

3) Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a "normalidade" amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais "razoáveis" do que racionais (cf. Mark, Doug). Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark).

4) A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida (cf. Cristina). Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.

Pode ser que, um dia, se ela conseguir matar Juan Antonio com um tiro certeiro, Maria Emilia seja internada ou presa. Pode ser que Juan Antonio seja um sujeito amoral e, por isso, perigoso. Pode ser que Vicky seja desesperadamente normal, trocando a chance de amar por uma casa num subúrbio norte-americano (estou sendo injusto com Vicky: na verdade ela tenta...).
Mas, para mim, a mais "patológica" de todas as personagens do filme é Cristina. Sua aparente abertura para a vida ("Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria", narra a voz em off) é apenas uma versão "bonita" e literária de sua "insatisfação crônica" (diagnosticada por Maria Emília, com razão). Nisso, Cristina é muito próxima da gente: ela quer e consegue brincar com a paixão, mas sem perder a ilusão da liberdade ou o sonho do que ela poderia encontrar na próxima esquina.

Por isso, sua voracidade é a do turista: tira muitas fotos pelo mundo afora, mas será que ela se deixa tocar pela vida?

5) Disse que "Vicky Cristina Barcelona" trata dos percalços da vida amorosa com leveza e bom humor; de fato, saí do cinema sorrindo, e não era o único. Mas a amiga que me acompanhava comentou: "Adorei, mas é um filme triste". "Como assim?", estranhei. Ela respondeu, com razão: "É um filme triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas, no fim, tudo isso não transforma ninguém. Vicky e Cristina vão embora iguais ao que elas eram no começo, sobretudo Cristina...".

Minha amiga tinha razão. O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona...

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O Verbo e a Verba

Na administração pública é importante a afinação entre o verbo e a verba.

O verbo sem a verba é um ser sozinho. Não adianta propagandear que se vai fazer mil coisas se não houver lastro no planejamento e na disponibilidade de verbas para sua execução. Todo administrador sabe que os recursos públicos são finitos e a demanda infinita. O cobertor é maior do que o corpo e é necessário decidir o que será coberto e o que ficará descoberto. Se assim não for, o verbo do anúncio programático da administração logo se tornará pó de promessa não cumprida. Hoje se sabe o que o eleitor faz com quem promete e não cumpre.

A verba sem o verbo também é um ente solitário. Determinar as prioridades de investimento é o básico de qualquer administrador responsável. No entanto, de nada servem o melhor planejamento e a mais transparente execução da verba sem a devida reverberação no verbo, sem a publicização dos feitos administrativos. Aliás, servem de motivo para a verberação da oposição, ainda que medíocre como muitas que a gente conhece.

Como qualquer verbo, o verbo do administrador público requer concordância verbal. Mesmo em posições diferentes, todos os seus auxiliares devem habitar um só discurso, convergindo para a compreensão única do que seja administrar a coisa pública, fazendo política transparente. Todos devem saber das responsabilidades das vozes do coral administrativo. Sem identidade no discurso, a imagem do administrador fragmenta-se, fica difusa. Para os auxiliares desafinados, há duas alternativas: exercitar-se atrás da afinação ou ceder lugar no palco. Uma voz fora do tom põe a perder a mais bela cantata de Bach.

Dentro da lei, os auxiliares do administrador público devem atender as demandas políticas. No entanto, esse atendimento não pode sacrificar os marcos conceituais da administração, pois eles sustentam a imagem criada pelo uso competente da verba, imagem que só vingará com o trabalho da comunicação, do uso competente do verbo.

Mesmo finitas, as verbas públicas bem usadas e acompanhadas de verbos eficientes transformam-se em capital político para o administrador na eleição seguinte. Sem um trabalho de linguagem que traduza os feitos administrativos em sentimento de realização dos anseios populares, o administrador some. No máximo, ficará como uma boa experiência eleitoral.

A utilização incorreta dos recursos públicos pode até ser disfarçada por uma boa propaganda. Mas assim como o consumidor não repete a dose de um produto ruim, o eleitor impõe o ostracismo político ao mau administrador do seu dinheiro.

Por fim, o casamento do verbo e da verba não tem efeito retroativo. Se o administrador usou a verba e não usou o verbo como devia, não adianta encher o eleitor de informações às vésperas do pleito porque, mais do que um produto, imagem é um processo. E se não usou a verba como devia, é inútil usar o verbo em propagandas ou artigos de jornais para dizer que fez e aconteceu porque as palavras tropeçam em suas próprias pernas curtas.

No casamento da verba com o verbo ganham o bom administrador e a população. Na briga da verba contra o verbo perdemos todos.

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domingo, 4 de janeiro de 2009

Acabei de ler: "O olho da rua", Eliane Brum


Pouca gente sabe, mas quase fui jornalista. Na hora de escolher que curso fazer no vestibular, fiquei entre Jornalismo e Letras, optando pelo segundo. Mas gosto muito do tema "comunicação", que tem sua interface com as Letras pela linguagem.

Por conta desse interesse, comprei, li e gostei do livro "O olho da rua", da jornalista Eliane Brum. Do surgimento de uma vida no meio da Amazônia, pelas mãos de parteiras da floresta, até os últimos 115 dias de vida de uma merendeira de escola em São Paulo. É por este universo que transita a jornalista em seu livro. Essas duas histórias e outras oito presentes na obra, cujo prefácio é de Caco Barcellos, revelam o estilo da autora, marcado pela delicadeza mesmo ao falar sobre temas áridos. Todas foram publicadas em ÉPOCA, mas de forma reduzida. Agora, o leitor terá a oportunidade de conferir os relatos de Eliane na íntegra.

Em "O Olho da Rua", a jornalista inova ao fazer uma reflexão sobre seu trabalho. Para cada reportagem, ela escreveu um texto sobre os dilemas que enfrentou, as escolhas que fez e os erros que cometeu. É um sincero reconhecimento das limitações do jornalismo.

Clique aqui para ler, na íntegra, a reportagem Casa de Velhos, na qual a autora conta a história de moradores de um asilo no Rio de Janeiro. Leia também o making of dessa história, em que Eliane relata por que essa reportagem, especificamente, é especial para ela. "A Casa de Velhos é uma de minhas reportagens preferidas – e é a que mais me dói. Ainda hoje ela dói muito. Porque errei feio."

É o segundo livro de Eliane que leio. O primeiro, A vida que ninguém vê, é uma coletânea de histórias reais sobre a extraordinária vida das pessoas comuns, foi reconhecido com o Prêmio Jabuti 2007, na categoria melhor livro de reportagem. Recomendo ambos.

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Adeus a um prefeito singular

José Ribamar Bessa Freire

Prezado Serafim Corrêa (PSB)

Saudações!

Escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que penso sobre a sua administração nestes últimos quatro anos como prefeito de Manaus, uma cidade que, desde a época em que se chamava Lugar da Barra, foi sistematicamente saqueada e pilhada por seus governantes. Quem diz isso não sou eu. É Bertino de Miranda, autor do livro publicado em 1908: ‘A Cidade de Manáos – Sua história e seus motins políticos’.

O rei de Portugal nomeava bandidos para governar a Capitania do Rio Negro. Um deles, Joaquim Tinoco Valente (1763-1779), “homem pobre, avarento e sem instrução”, meteu-se nas “negociatas mais sórdidas e abjetas”, uma das quais foi roubar as “camisas e meias dos soldados que o Rei manda distribuir todos os anos pelas tropas na América”. Esse é o inspirador, o herói, o modelo do Zé Mello Merenda. Depois dele, José Antônio Évora, membro da Junta Governativa (1786), nomeou o filho Felipe Évora almoxarife do Erário. Dessa forma, comprou fazendas de gado e ficou podre de rico.

Era comum dar trambiques e desfalques. José Joaquim Vitório (1806-1818) entrou pobre no governo e, em doze anos, se tornou dono da “célebre chácara no Tarumã, onde explorava os índios na plantação de café e canela. Um escândalo”. Ele roubou, roubou, mas roubou TANTO que Governador Vitório é, hoje, nome de rua, no centro de Manaus, cidade que reverencia e celebra seus corruptos. Foi substituído por Manoel Joaquim do Paço (1818-1821), o governador depravado, chefe da ‘quadrilha de facínoras’, que extorquia os empresários da construção civil (Taquiprati 10/12/96).

De lá para cá, mudou a forma de escolher os governantes. O rei, agora, é o povo, o eleitor, mantido desinformado. Talvez, por isso, não mudou a natureza dos políticos, que continuam usando os cargos para enriquecer. A maior parte deles só quer mesmo é “se arrumar”. Conspurcaram a política. De uma atividade bela e nobre feita por pessoas que dedicam suas vidas ao bem comum – tal como idealizaram os filósofos gregos – a política passou a ser algo asqueroso, o chiqueiro da sociedade. Com isso, mataram as esperanças de jovens idealistas, que hesitam em se enlamear.

O chiqueiro

Em todo o Brasil, políticos eleitos têm problemas com a Justiça e só conseguem tomar posse graças a advogados bem pagos, competentes e inescrupulosos, que contam com a cumplicidade de um Judiciário muitas vezes venal. O currículo deles é folha corrida da policia, cheia de antecedentes criminais. Exagero? De uma lista de 38 vereadores de Manaus, me diga, honestamente, quantos demonstram preocupação com o bem comum, a justiça, o bom governo, a coisa pública? Quatro, três, dois? Pobre Manaus!

Em 2004, Serafim derrotou os velhos esquemas de poder enraizados na sociedade amazonense. Elegeu-se prefeito de Manaus, numa coligação pela mudança social. O que fez? Qual o balanço de sua gestão? A oposição diz que a cidade está esburacada, que a água não chega a vários bairros, que foi um erro nomear seu filho Marcelo Corrêa secretário de articulação política, que Serafim foi um prefeito singular: construiu apenas uma creche, um viaduto, uma maternidade, um centro de educação especial e reformou um cemitério. Tudo no singular.

Numa democracia, esse é o papel da oposição: criticar. Não moro em Manaus, não contei os buracos nas ruas. Aqui de longe não posso ver a árvore, é verdade, mas vejo o bosque, a floresta, que quem está perto não enxerga. Assim, distanciado, me parece que sua singularidade foi outra. Sabe qual foi? Em vez de meter o pé-de-cabra nos cofres públicos para enriquecer, ele tentou promover o bem comum, com erros e acertos, divorciando a política da bandidagem. Isso, no Amazonas, é singular.

O bem comum consiste na defesa dos direitos e deveres do cidadão, sobretudo os mais frágeis, os lascados, os humilhados, os excluídos dos serviços de educação e saúde. Em quatro anos, Manaus se tornou a terceira cidade brasileira em número de alunos na rede municipal de ensino, perdendo apenas para o Rio e São Paulo. São 247 mil crianças, com aulas dadas por mestres valorizados. O professor de 20 horas, nível 1, ganhava R$ 509,00, no início da gestão. Hoje, ganha R$1.095,00, um aumento de 115%, numa inflação acumulada no período de 26,7.

Fala aos moços

E daí, Serafim? Qualquer prefeito pode construir, reformar, ampliar e climatizar as escolas municipais, fornecer merenda, uniforme e kit escolar com uma original borracha socialista, como foi feito (Taquiprati, 02/04/06). Sua gestão escolheu diretores das escolas com base no mérito e não no apadrinhamento de edis trambiqueiros, olhou para os índios urbanos, garantiu um Plano de Cargos para a área da saúde, reformou 158 casinhas do médico da família, implantou o remédio fácil, criou um fundo de previdência para funcionários. E daí? Nada disso teria valor, sem transparência.

Essa foi sua grande singularidade. Todas as contas da Prefeitura estão na internet. È possível saber o credor e o valor recebido, a arrecadação de tributos, fluxo de caixa, pagamentos. A Prefeitura de Manaus, uma das primeiras do Brasil que implantou este serviço, emite nota fiscal eletrônica, criou comissões de licitações, com realização de pregão – um leilão ao contrário - o que gerou uma economia significativa para os cofres públicos. A transparência do pregão eletrônico fez com que empresas de outros estados passassem a disputar a licitação e a prestar serviços para a prefeitura.

O Governador Vitório acharia que só um ‘otário’ abre o jogo assim e sai do governo com os mesmos bens com os quais entrou, conforme mostra a declaração de bens publicada no Diário Oficial do Município (23/12) de Serafim, um prefeito realmente singular, pois provou que é possível viver no chiqueiro sem se emporcalhar. Ensinou que se pode perder uma eleição com elegância, serenidade e sabedoria. Quem sabe, isso não estimula os jovens bem intencionados a entrarem na política?

Na sua ‘Fala aos moços’, Darcy Ribeiro diz: “Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas”. Suspeito que os eleitores de Serafim compartilham esse sentimento, sabendo que a luta continua. Ele, que agora conhece melhor a máquina, tem o dever de nos ajudar a defender essas conquistas da sociedade amazonense contra sua raiz histórica apodrecida.

P.S. 1 – A coluna criticou aqui a gestão Serafim, sobretudo na questão ambiental, onde faltou coragem para defender os fragmentos de floresta na cidade. Se ele fosse reeleito, as criticas continuariam, com gozação sobre a inauguração do cemitério no último dia do ano. Esperamos sua volta ao poder para cobrar dele umas boas chineladas na bunda do Marcelo, cuja eleição para deputado federal, na forma como foi feita, contribuiu para selar a derrota do pai na prefeitura.

P.S. 2 - Artigo similar – Os dois filhos de arigós - reconhecendo a contribuição de Arthur Neto e Felix Valois para a vida política do Amazonas foi publicado em 29/12/1992 (www.taquiprati.com.br).

José Ribamar Bessa Freire, até onde consta nos autos, um cidadão amazonense sem cargo na Prefeitura.

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Um texto antigo para recordar...

O homem romântico

O homem romântico, dizem, é como o tangará: ser raro em extinção, cujo nome poucos reconhecem. O tangará é uma ave que raramente pousa no chão, passando a maior parte do tempo em árvores. O homem romântico também é um nefelibata, habitante das nuvens do pensamento, procurando sempre formas diferentes de cortejar sua amada. Sim, robertocarlianamente ele ainda chama de querida a sua amada.

O homem romântico sabe que não precisa inventar muito para demonstrar o seu amor verdadeiro. Por isso, o homem romântico recorre à dúzia de rosas, caixas de chocolate e cartões com mensagens lindas nos dias especiais. Ele nunca esquece um dia especial. Para o homem romântico, a propósito, qualquer dia pode virar um dia especial. Ele sabe que isso só depende dele. Ele, como ninguém, vive o tal carpe diem.

Um homem romântico se importa com os detalhes. Nos detalhes que moram as diferenças. Um homem romântico abre a porta do carro, da sala, do coração. O homem romântico cede seu lugar. O homem romântico escreve bilhetinhos desejando um bom-dia ou boa sorte na entrevista para aquele emprego novo e o coloca escondido na bolsa da amada. O homem romântico é um Anchieta de espelho de banheiro, escrevendo mensagens poéticas que acordam o dia da mulher com palavras especiais. O homem romântico, se preciso, tira sua camisa para abrigar a mulher na chuva torrencial sem medo de que ela pense que ele quer compensar alguma desvantagem com essa atitude.

O homem romântico sabe da praticidade de uma geladeira, mas prefere como presente um jantar a dois naquele mesmo restaurante onde a história registrou momentos da concepção do romance. Naquela mesma mesa. Para repetir os mesmos gestos. De preferência sob a mesma trilha sonora. Um homem romântico constrói a dedo a trilha sonora. Escolhe as músicas, como escolhe as formas de agradar.

O homem romântico vive em qualquer lugar como se fosse sua casa. Ser feliz e fazer os outros felizes é sua guerra particular. O homem romântico é um sonhador, não um deslumbrado. Age por paixão, mas a paixão do tipo que liberta e não a do tipo que escraviza. Cortês sem excesso, para o homem romântico ninguém pode tratar uma mulher melhor do que ele. Fraterno sem invasão, para o homem romântico a sua é a mais confortante das companhias possíveis. Pelo menos, não mede esforços para que seja. O homem romântico provoca sorrisos quando chega e vazios quando vai. Deixa no ar o desejo de sua presença. Faz com que anseiem pelo seu perfume.

O homem romântico gosta de mulher. Não só no sentido sexual do termo. Também, claro. Mas o homem romântico sabe que gostar de mulher é prestar atenção nela, é ter a sensibilidade para cativá-la a cada momento e compreender sua peculiaridade. É ter paciência para conviver com sua necessidade de falar ou para sobreviver quando isso estiver além de sua limitação masculina. É respeitar seu tempo. É ouvi-la contar como foi seu dia, sorvendo cada palavra e lastimando genuinamente não ter estado presente. O que faz um homem romântico é a vontade de entender a mulher. Porque a mulher é um bicho complicado e difícil de entender. Mas essa curiosidade é constitutiva do homem romântico e ele tem essa curiosidade. Mas o homem romântico, registre-se, pode virar um ogro se sentir que outro homem corteja a sua mulher.

O homem romântico, apesar de pleno, é um incompleto. Sabe ele que se completa em sua mulher. Quando a beija, quando a abraça, quando suam juntos, quando a penetra. Todavia, o homem romântico sabe que a penetração do corpo nada vale sem a prévia penetração da alma. E é fato: o fazer amor do homem romântico começa bem antes do encontro dos corpos, nos sorrisos, palavras, silêncios que antecederam, cheios de sentidos compartilhados. O homem romântico deriva seu prazer do prazer que faz a mulher sentir. A medida de seu prazer é a realização do dela. O homem romântico vive a saga de encher sua mulher de beijos de todos os tipos: carinhosos, fogosos, apaixonados, molhados, permitidos, roubados, fortes e delicados. Um festival deles. Em todos os lugares. Várias vezes. Por breves e longos tempos. Na aparente e inocente leitura de fragilidade que acompanha o homem romântico se esconde um amante único, inesquecível. Como ninguém ama sozinho, o homem romântico sabe que sem o feminino o masculino não existe. Ele sabe-se um Yang frágil, completamente dependente do Yin fontal.

O homem romântico adora surpreender sua mulher. Inventar um programa especial sem hora marcada. Enviar uma pizza em que esteja escrito “I Love You” com catupiri. Ligar às seis da manhã para desejar bom-dia, mandar uma mensagem só para dizer que sente sua falta. Fazer aquele prato que ela gosta tanto. Ser chef de sua degustação. O homem romântico consegue num toque de pés sob a mesa dizer o que quer e ser plenamente entendido.

O homem romântico olha sua mulher dormindo como se fosse a mais bela escultura de Michelangelo. Para ele é. Seu olhar pousa em seu corpo em repouso com a maciez de seus pensamentos. Analisa a boca, acompanha a respiração. Admira os cabelos emaranhados na beleza selvagem do momento que segue a ternura. O homem romântico acorda sua mulher com beijos em seus olhos, pescoço e uma mordidinha muito de leve na ponta do seu nariz. O homem romântico não sai sem um carinho de despedida.

O homem romântico é um romântico gratuito. Faz tudo isso sem cobrar nada, a não ser a eterna presença do olhar terno que recebe ao ser romântico. Ele é movido à ternura. Ele é movido a carinho. Ele é movido a amor. O homem romântico é um total flex afetivo.

Um homem romântico, poucos sabem, está em cada homem. Nuns, adormecido e amordaçado, esperando o seu resgate por um amor verdadeiro, daqueles que nos deixam bobos e leves. Noutros, já liberto e tresloucado, fazendo a hora de seu romantismo, fazendo de sua mulher a mulher que mais deseja um homem. Aquele homem que a encanta, que a seduz, que lhe dá prazer, que a enreda em seu olhar, que a prende no seu infalível visgo, que a entrelaça na sua sombra e que a atrai feito imã, obliterando sua razão porque chaveia nela a emoção mais pura, que vem sabe-se lá de onde e que ela sequer sabia que tinha dentro de si. O homem romântico é um irresistível que não resiste a uma paixão verdadeira, paixão que, num círculo virtuoso, não resiste a ele igualmente. Com o homem romântico, simplesmente acontece. Que me perdoem os trogloditas, mas ser romântico é fundamental. Homem que é homem chora de e por amor. Porque é verdadeiro, porque é macho. Porque é romântico. Quando lhes dão asas, o homem romântico voa alto. Que nem o tangará. Que nem o tangará.

S.

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Sérgio Augusto Freire de Souza
27 de agosto de 2008.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Acordo Ortográfico

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que entra em vigor hoje, foi assinado em Lisboa, em 1990, e ratificado pelo Brasil, Portugal e por outros três países de língua portuguesa.

Para quem não conhece o acordo: o trema deixa de existir, a não ser em nomes próprios. O hífen não é mais usado quando o segundo elemento começar com 'r' ou 's'. Essas letras deverm ser duplicadas (antissemita e contrarregra). Também não é mais usado quando o primeiro elemento terminar em vogal e o segundo elemento começar com uma vogal diferente (extraescolar e autoestrada). O circunflexo não é mais usado nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver (creem, leem, deem). Apenas quando os prefixos terminarem em "r" se mantem o hífen (hiper-realista, super-resistente). O acento circunflexo também não é mais usado em palavras terminadas com hiato 'oo', como em enjoo e em voo. O acento agudo não é mais usado em palavra terminada em 'eia' e 'oia' (ideia, jiboia). Os portugueses deixam, por exemplo, de escrever "húmido" para escrever "úmido". Desaparecem também da grafia em Portugal o "c" e o "p" mudos, como em "acção" e "óptimo". Com a incorporação do "k", "w" e "y", o alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26.

Como toda proposta, a da unificação ortográfica traz debates acalorados. Entre os argumentos a favor estão a maior penetrabilidade da língua portuguesa no mundo (ainda pequena apesar de ser uma das mais faladas, quer em número de falantes quer em número de países), a ampliação do mercado editorial para os países lusófonos sem o custo da adaptação, a abertura para um entendimento entre Portugal e o Brasil sobre a certificação comum de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros (o Brasil emite hoje o certificado CELPE-Bras, enquanto que em Portugal o único diploma válido é o emitido pelo Instituto Camões), além da expansão e do fortalecimento da cooperação educacional em língua portuguesa. Os do contra alegam que ela é insuficiente para atingir seus propósitos, uma vez que muitas palavras continuarão apresentando possíveis variantes ortográficas; sustentam que haverá uma súbita obsolescência de dicionários, gramáticas e livros, além de uma custosa reaprendizagem ortográfica por parte de uma grande massa de pessoas, incluindo crianças.

A favor ou contra, o certo é que a reforma é destinada à língua escrita e, portanto à normatização da língua culta padrão, não atingindo a oralidade dos países lusófonos. Com ou sem trema ou circunflexo, diga-se, a lingüiça/linguiça continuará dando enjôo/enjoo em muita gente. A unificação tem lá suas vantagens, mas uma língua não se estabelece no mundo por unificação ortográfica, mas por peso simbólico de sua economia e sua influência geopolítica, vide o caso do inglês e, mais recentemente, do chinês, que já começa a ser estudado devido ao seu boom econômico.

A questão estética do acordo, de fundo econômico, aponta para uma outra mais urgente, de fundo social: a do letramento, que é o uso social da linguagem, tema que merece um texto próprio e ao qual voltarei em breve. Um detalhe: agora sou doutor em linguística, sem trema.

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Um 2009 alado.

Que 2009 seja um ano alado! Que as asas dos desejos e das vontades lhe levem aos melhores momentos de sua vida. 2008 foi-se. Que vá, levando as coisas ruins e chatas. Que passe o bastão dos novos desafios e das mudanças para o ano que entra tomar conta e correr feliz para a linha de chegada. Viva! Intensamente. Sem arrependimentos e pleno de novas emoções, sensações e descobertas. E que aquele plano secreto, que você não contou pra ninguém, também se concretize. É o que quero para mim. É o que eu desejo para você que me lê, daqui do meio do mato, nos arredores de Campinas. Beijo gordo e feliz. SF.

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Espelho, espelho meu...

O que mais impressionou Elaine não era o fato de Eupídio ser carinhoso e atencioso com ela. Claro que isso também contava. Mas ela se interessou de vez por ele quando percebeu que ele deixava sempre o último pedaço, a última cereja do bolo, a última almondega, o último gole de coca-cola para ela. Elaine tinha uma teoria: enquanto o outro lhe cede o último pedaço de comida o amor ainda existe. Abrir mão de comida era para ela a prova suprema de que a felicidade do outro é prioridade, ainda que a custo de nossa fome. Ela chamava isso de jujum do amor.

Na verdade, Elaine era uma mulher de teorias. Defendia uma outra que chamava de banquete dos leões. Dizia que quando o casal não mais protegesse um ao outro, mas, ao contrário, quando um cônjuge começasse a oferecer o outro de bandeja para ser objeto de chacota da sua família, os leões da teoria, o amor já estava dando sinais que partira.

Eupídio, por sua vez, era um cara tranqüilo. Levava as teorias da mulher na boa, como se fosse um jogo argumentativo no qual entrava por diversão, nunca a sério. Deixava a última porção sempre para ela porque era um cavalheiro, numa época em que isso soa démodé. Jamais permitia que ela fosse objeto dos papos ácidos de sua família, nos almoços de domingo, porque a amava. Era atencioso porque sabia que tudo que uma mulher precisa é de atenção, alguém que a ouça. Mulheres são movidas a silêncio dos outros.

Um dia, Elaine colocou na cabeça que Eupídio não gostava mais dela. Do nada. Ele continuava deixando a última colherada do mousse de cupuaçu para ela. Nunca havia deixado que ninguém da família dele falasse sequer uma vírgula a criticando, a despeito de suas infinitas manias que se sobressaiam a olhos vistos e de seu ciúme shakespeareano. Sempre que ela falava ele não só ouvia como escutava. Mas ela encasquetou. Na hora do café da manhã.

– Mas, Laine, por que...
– Você não gosta mais de mim! Pára de negar! Ontem, no aniversário da tia Dorzinha, meus irmãos e meus primos me fizeram ver isso. Você não cuida de mim, não me dá mais atenção. Eu falo e você já não me ouve. Eu estava cega e eles me trouxeram a luz.
– Mas, Laine. De onde você...
– Deve ter outra. Com certeza tem outra. Nem abre nem mais a porta do carro pra mim...
– A porta é automática, amor, abre com o alarme.
– Sem desculpa, Eupídio Augusto. Sem desculpa. E não gosto de ser interrompida! Pra mim chega!

Elaine raspou o pote de manteiga, passou no último pão de queijo da cestinha, tomou o gole de suco que restava na caixinha e saiu batendo a porta. Largou Eupídio, esse insensível.

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Silêncio

Depois dos quarenta tenho tentado falar menos e ouvir mais. Quanto mais a gente fala, mais bronca arruma. É fato. Está sendo um bom exercício. Tenho fugido de gente que engole pausa. João Cabral de Melo Neto já avisava: "Nem deve a voz ter diarréia"...

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Música sexta à noite...

No Media Player: "Amado", Vanessa da Mata, de um beleza singela; "Across the Universe", Beatles, paixão antiga; "If I fell", Beatles de novo, o hino dos que têm medo de se apaixonar:

If I fell in love with you / Se eu me apaixonar por você
Would you promise to be true / Você jura ser sincera
And help me understand / E me ajudar a entender
´cause I´ve been in love before / Porque eu já me apaixonei antes
And I found that love was more / E descobri que o amor é mais
Than just holding hands / Do que simplesmente andar de mãos dadas

If I give my heart to you / Se eu der meu coração a você
I must be sure / Eu tenho de ter certeza
From the very start / Desde o começo
That you would love me more than her / Que você vai me amar mais do que ela
If I trust in you oh please / Se eu confiar em você, por favor,
Don´t run and hide´/ Não fuja e suma
If I love you too oh please / Se eu lhe amar também
Don´t hurt my pride like her / Não fira minha auto-estima
´cause I couldn´t stand the pain / Porque eu não suportaria a dor
And I would be sad if our new love was in vain / E eu ficaria triste se nosso amor fosse em vão
So I hope you see that I / Então espero que você perceba que eu
Would love to love you / Adoraria lhe amar
And that she will cry / E que ela vai chorar
When she learns we are two / Quando se der conta que nós somos um casal

If I fell in love with you / Se eu me apaixonar por você..

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Lista de desejos 2009

[Outro texto antigo (de 2005) adaptado para 2009, mas com votos tão sinceros quanto os da época. Feliz Ano Novo!]


“Sonho que se sonha só é sonho. Sonho que se sonha junto é realidade”.
Dom Helder Câmara

As festas de fim de ano estão dobrando o canto. “Canto” é esquina, para quem não fala Amazonês. Lá vêm elas, serelepes. O Natal com seus papais-noéis, saiuns-de-Manaus, suas luzinhas amarelas e suas inefáveis músicas de harpa. O comércio vibra com o seu melhor momento no ano. Todo mundo correndo atrás dos agrados e mimos. Shopping centers lotados. Amigos-secretos pululam nas repartições. Limite de dez reais, claro. O que vale é que ele venha cheio de boas intenções. Logo depois do Natal vem o novo Ano Novo, com seus brancos nas roupas, taças para o champagne do brinde e a uníssona contagem regressiva. Queima de fogos, lista de intenções.
Falando em intenções, quero então fazer uma lista de desejos para o ano que se aprochega. E ao contrário do que se acredita, desejos a gente revela, sim, para que os outros desejem conosco olhando para a mesma estrela. Assim podemos dar vida às palavras de Dom Helder, aí em cima na epígrafe.
Então, que em 2009 a meta primeira de todas as pessoas seja atingida. Ticar mais um xiszinho nas tarefas a realizar na vida é sempre gratificante. Muitas vezes, dessa meta dependem outras metas, metas-corolárias – corolária é uma palavra difícil, mas linda. A minha primeirona para o ano que vem é ter meu filho com saúde e tranqüilidade.

Que em 2009 as pessoas amem mais e sofram menos por causa de outras. Que entendam que há sempre um caminho para felicidade, mesmo que o que as leve para lá não seja aquele trajeto tão cuidadosamente planejado. Que descubram, no novo e por vezes improvisado caminho, o riacho límpido que perderiam se não houvesse o desvio feito a contragosto. E que não destruam o caminho caminhado, pois foi ele que lhes trouxe até aqui.

Que em 2009 possamos dar continuidade ao trabalho que estamos desenvolvendo no nosso espaço profssional. Há uma sede desértica e uma fome de mudança africana por mudanças qualitativas na sociedade. Que possamos nos regozijar com uma esperada justiça social – regozijar também é uma palavra linda.

Que em 2009 quem se perdeu se ache. Quem se achar, se curta. Quem se curtir, que sonhe. Que use como barômetro da vida não as pequeninas coisas do dia-a-dia, as más e mesquinhas, mas as pequeninas coisas do dia-a-dia, as boas e agradáveis. Que, assim, nosso bem-querer e nossa disposição em viver nossa vida, única e nossa, beijem a boca e despertem do sono a Pollyana bela e adormecida que existe em cada um de nós. Robertocarlianamente, é preciso saber viver. Sonhar não custa nada, frase trivial e tão verdadeira. É da trivialidade que surgem os geniais insights. Devemos olhar com cuidado o comum que nos cerca, pois ele guarda surpresas inimagináveis e mudanças de vida impensáveis.

Que em 2009 as inevitáveis lágrimas que rolarem em nossas faces sirvam para enxágüe da alma. Que sirvam para limpar os olhos dos travos de amargura que porventura tenham tocado a boca de nosso espírito. Que as lágrimas vertidas sirvam para regar o verde do jardim de nossa alma, por vezes cinzentas. A dor é o maior aprendizado do ser humano. Sempre haverá algo a doer. Quanto mais cedo reagimos e aprendemos a domesticá-la, mais cedo creio que seremos mais serenos e lépidos diante das drummondianas pedras no meio do caminho.

Que em 2009 novas pessoas especiais surjam em nossas vidas. A cada ano, acredito, um bom punhado delas é colocado a dedo no traçado de nossa existência com alguma missão que só muito mais tarde descobriremos. Ou não. Pessoas que simples e profundamente nos fazem bem. Pessoas cujo simples cruzar de olhar já dá um tom especial à melodia do nosso dia até então desafinado. Pessoas que fazem o coração jovializar surpreso e agradado ao vê-las inesperadamente e que levam esse mesmo coração a esperar ansioso pelo próximo encontro. Pessoas que atrasam nossas programações mais mundanas por conta de suas inestimáveis companhias, quase divinas. Pessoas especiais a quem nossa linguagem chama autonomamente de amigas, independente do tempo de convívio. Pessoas como essa em quem você está pensando agora.
Que em 2009 as velhas mágoas se aposentem e vão curtir a vida em qualquer outro lugar. Que abram vaga nova no coração, onde nunca deveriam ter ocupado assento. Que em seus lugares, alegrias joviais e cheias de gás, recém-nascidas ou formadas, assumam e sintam o prazer em servir doses sem medida de paciência, tolerância e carinho em relação aos que nos circundam.
Que em 2009 aquele velho amigo que se pôs distante ponha-se achegado. Que as gargalhadas e risadagens compartilhadas e registradas no amarelado álbum do tempo, e suspensas pelos rumos da vida, retomem seu viço e seu som estridente de então, quando lágrimas corriam soltas lavando a alma de felicidade. Uma amizade resgatada é como uma nota de cinqüenta achada no bolso daquela bermuda que há muito a gente não usa: alegra e permite a retomada de planos. E que também aquele amigo que se porá distante no ano que entra não se desachegue. Que vá, mas fique, deixando sua presença fraterna no lugar de sua presença física. Deixando seu cheiro em nossa alma para a lembrança eterna.

Que em 2009 aquele velho projeto secreto tenha sua vez. Ele sempre esperou quietinho por ela. Chegou a hora. Desengavete-o!
Que em 2009 seja o Ano Internacional do Reencontro. Reencontro consigo, com seus amigos, com sua família. Reencontro com aqueles de quem nos desencontramos por causa da teia dos acontecimentos cotidianos. Reencontro com aqueles de quem nos perdemos no tumulto da multidão dos fatos. Reencontro com nossos valores mais pueris de solidariedade, afetividade e humildade. Reencontro com Deus, grande maestro do show da vida e de vida que nos cerca.
Que 2009 seja o ano da virada. Seja lá qual for essa virada. Desde que seja para melhor. Que seja o ano do recomeço, seja lá o que for que precise ser recomeçado. Rupturas virão, ao certo, mas novos laços imediatamente surgirão para não deixar o entremeado tecido da vida roto e maltrapilho. A roupa que veste a vida espelha a aura que reveste a alma. E vice-versa.
Que 2009 seja o ano da coragem. Da coragem de rever autocriticamente nossas pisadas de bola e nossas mancadas, sem punições ou autoflagelos. Quem não dá testadas nessa vida de quando em vez? Que sejam momentos de introspecção positiva. Momentos de rever nossos planos, conceitos e preconceitos daninhos. Coragem para, tudo revisto, assumir posturas claras. Coragem para não esquecer que ninguém é eterno e que a vida é efêmera como uma florzinha no campo. Exatamente por isso não vale a pena ficar ruminando em cima daquela questiúncula miudinha e pequena. Coragem para dizer diretamente o que tem a ser dito, mas de forma tranqüila, serena e verdadeira, como só os corajosos sabem fazer. Os fracos de alma sentem a necessidade de dizer por terceiros, de mandar recados. Aliás, não é necessidade: é falta de opção. É a única forma que sabem fazê-lo. Então, que aprendam outras formas em 2009.

Que em 2009 aquele dia anual de cabeça quente sirva para aquecer o coração. Explodir para quê? Que o calor da cabeça gere energia termoelétrica para processar as perguntas sem respostas, refletir a vida, refletir as tomadas de rumos, refletir os novos momentos e sua significação. Refletir a reflexão. Dormir antes de decidir.

Que 2009 seja um ano de tolerância. Que se perceba que as pessoas são diferentes e que nessa diferença reside a beleza de uma relação. Mapear o amor que sentimos e que funda nossa relação com os outros é uma das tarefas mais primordiais e gostosas de qualquer relação. É bom demais construir nossa história, riscar nossos corações nas árvores dos fatos, nas calçadas da mente. E lembrar, sem dramas, que cada um às vezes precisa de um minuto sozinho no seu cantinho. Não é nem preciso verbalizar essa necessidade para o outro. O amor proficiente no amor aprende a ler silêncios, textualizar olhares, significar sorrisos e gestos. Enfim, compreende a necessidade de transcender as palavras enunciadas. O não-dito grita o que as palavras calam.

Que em 2009 aquele velho conselho de Victor Hugo prevaleça: tenha dinheiro, mas não esqueça quem manda em quem. Dinheiro é conseqüência e não meta. Pense nisso, mas não se desvalorize enquanto profissional. A felicidade no trabalho é elemento importante para o equilíbrio da felicidade global, mesmo que por vezes ela pareça encurralada por desânimos e sensações de imobilidade. Os ritmos das pessoas para a cadência da vida são diferentes: alguns sambam, outros valsam. Alguns bregam no Calypso, outros viajam na mais deliciosa MPB. Ninguém muda tudo, mas alguma coisa se muda. Concentre-se nesse alguma coisa e toque a canoa que o chibé lhe espera.

Que em 2009 as pessoas façam algo que nunca fizeram. Ou porque não gostam ou porque não tiveram chance. Que descubram nessas coisas diferentes um prazer diferente. Que tomem Guaraná Baré, comam tucumã no pão, bife com ketchup. Que criem coragem para provar Yaksoba e beringela. Que assistam filmes do Almodóvar , experimentem uma bala de araçá-boi. Que se desapoquentem ouvindo Jorge Aragão ou Carpenters. Que assistam ao Domingão do Faustão e se deliciem com aquelas velhas videocassetadas de dez anos atrás. Que tome um delicioso banho de chuva a dois ao som de “Que maravilha”, cantada pelo Toquinho. Que leia um livro à cama, trocando calorzinho pelos pés que se chamegam por baixo do edredom. Que comam o doce abio e riam juntos do beijo de boca grudenta que a fruta proporciona. Que riam dos outros e, acima de tudo, riam de si. Aprender a ri de si é fundamental.

Que em 2009 a saudade venha e venha forte. Só sente saudade quem viveu intensamente. Que haja vida intensa no ano que rebenta. Que essa intensidade não signifique assoberbamento, mas compactação, viçosidade e viscosidade ao vinho da celebração aos fatos. Que brindemos à vida sem ficar de porre, mas apenas levemente felizes.

Que 2009, enfim, seja seu ano. Ao desejar um Natal maravilhoso, peço a você que me lê para não esquecer algo fundamental: de dar os parabéns ao aniversariante.

Meu último mas nem por isso menos importante desejo é o de que em 2009 minha lista de desejos tenha apenas uma frase: um 2010 igual a 2009: feliz. Aliás, feliz é uma palavra muito linda.

Sérgio Freire

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Música na quinta à noite

No Media Player, "Meu bem querer", Djavan. Sem comentários.

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Vamos pecar em 2009!


[Um texto de 2007, desejando muitos pecados em 2008, adaptado para 2009...]


Nesta época, nossas caixas-postais se enchem de reflexões. Particularmente, espero que cada um de nós exercite seu lado pecador em 2009. Um mundo novo sempre é possível se capricharmos nos pecados capitais.

Que a ira acometa o coração de todos nós. Que nos iremos contra as injustiças, contra o terror, contra as formas de fazer o mal. Que a cólera nos tome em acessos para que, com os dons a nós dados gratuitamente pelo bom Deus, possamos fazer diferença na defesa dos fracos e humildes. Que o furor de cidadania guie nossas ações contra um mundo indignamente famélico num planeta farto.

Que em 2009 tenhamos gula. Gula de amores, de carinhos, de solidariedade. Que sejamos vorazes em nosso consumo de bom humor. Glutões de paz, que possamos rir soltos juntos às crianças, ajudar a um desconhecido, abrir a porta para alguém, devolver uma carteira forrada de grana ao dono. Que consumamos mais amizades, de todas as cores e sabores.

No ano que nasce, que brote em cada de um nós uma luxúria desenfreada. Por que não se esbaldar sem rédeas de vez em quando? Por que não deixar as crianças pisarem na areia, comerem uma barra de chocolate? Que tenhamos um tempo para pequenos prazeres com nossos irmãos. Que resgatemos o gosto do sorvete de domingo. Que o viço retorne à nossa vida, se por acaso tivermos permitido que ela tenha desbotado.

Um ano novo começa. Que tenhamos muita inveja nos próximos 365 dias. Inveja de quem faz trabalho voluntário, de quem vive pensando no outro, de quem cuida de si, de quem cresce sem derrubar os outros. Invejemos a pureza e a inocência das crianças. Permitamo-nos cobiçar a mulher do próximo para querê-la bem e para aproximar mais o próximo da gente. Muita inveja da capacidade de catalisar o bem para todos nós em 2009.

Que a virada do ano nos traga momentos de muita preguiça. Preguiça na hora de fazer atos ou praticar omissões que só façam mal, na hora de corromper o guarda, de praguejar, de cometer o menor dos delitos. Que cada vez que formos convocados para o mal em suas várias formas possamos usar nossa mandriice como álibi. E se o malvado que lhe convidou lhe perguntar o que que é isso, mande-o pastar.

2009 é um bom ano para ser avaro. Sejamos econômicos com nosso mau-humor e com nossos momentos nervosinhos. Sejamos morrinha quando as situações conspirarem para sermos mesquinhos: que nessa hora pensemos somente em nós. Pensemos que não vale a pena fazer nada contra os outros. Pensemos em suas coisas em 2009: na nossa família, nos nossos filhos, nos nossos amigos, no nosso mundo. Sejamos sovinas de fofocas, de maledicências, de derrubações.

Sejamos, por fim, bastante orgulhosos no ano novo. Tenhamos orgulho de nossos aprendizados, de tal forma que possam servir de exemplo para os que vêm depois de nós. Sejamos presunçosos quanto à nossa capacidade de fazer um mundo melhor. E não nos acanhemos em sermos arrogantes com os que não acreditarem em nós quanto a isso. Assoberbemo-nos de boas intenções para o raiar do primeiro dia do ano.

“Pecar” significa “errar o alvo”. Pois que erremos o alvo. Desejo que pequemos muito e com fervor. E sejamos felizes. É o que lhe desejo para 2009: doces pecados capitais para uma vida melhor e mais feliz. E quem não quer ser feliz que atire a primeira pedra.

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Acabei d ler: "Para Francisco", de Cristiana Guerra.


Comprei o livro por acaso na Siciliano de Jundiaí. Às vezes invoco com um livro e compro. Em dois dias, li tudo. A cada página ficava embargado pela doce e verdadeira escrita de Cristiana. Minha melhor leitura de 2008, junto com "O Código da Vida", de Saulo Ramos.

Para o filho que não conheceu pessoalmente o pai, Cristiana escreve. Começou em um blog, o Para Franscisco. Agora, chega às prateleiras de livrarias. A história da publicitária mineira parece filme: quando estava grávida de sete meses, perdeu o namorado --o coração dele parou de repente. No meio do caminho, ficaram lembranças, expectativas e saudades. Para agüentar a dor da perda do amor da sua vida e entender a alegria pela chegada do outro amor da sua vida, começou a escrever.

O blog Para Francisco nasceu em julho de 2007, dois anos após o início do namoro de Cris e Gui, um ano depois da descoberta da gravidez, seis meses depois da morte dele e quatro meses após o nascimento do bebê. Os textos, escritos em forma de diário, logo ganharam repercussão --o blog recebe cerca de 2.000 visitas por dia.

"Eu queria falar para o Francisco, mas também queria falar comigo mesma. Queria falar sobre o pai dele, sobre mim, sobre o que eu tinha vivido e sobre o que eu sentia. Eu já tinha perdido mãe e pai e sabia que, por uma questão de sobrevivência, as lembranças frescas do Gui iriam me fugir. Achei injusto, com o Francisco e comigo, que as lembranças se perdessem com o tempo, e o blog se tornou um compromisso diário, constante", afirmou Cristiana em entrevista à Folha de São Paulo.

As 192 páginas do livro são compostas principalmente de textos do blog. Há, também, e-mails trocados entre o casal, mais de 20 textos inéditos --esboços que não tinham virado post-- e uma carta para Guilherme, "escrita de uma vez só".

Um belo livro que recomendo de presente àqueles que querem repensar a palavra família. Virei frequentador assíduo do blog.

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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Música na terça à noite...

No Media Player: Ain't no sunshine when she's gone, Lighthouse Family, título auto-explicativo; Cálice, Chico Buarque e Milton Nascimento. Eu tinha uns doze anos; Há tempos, Legião Urbana, "disciplina é liberdade". É mesmo; Comfortably numb, Pink Floyd, roubaram meu CD do The Wall, mas essa música me faz ficar confortavelmente dormente; Bandolins, Oswaldo Montenegro. Fez sucesso no ano em que fui campeão amazonense de futebol de mesa. Finalizo com Na sombra de uma árvore, Hyldon. Um convite sempre em aberto.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Dois graus à esquerda


Um formigueiro de pessoas correndo para comprar presentes para os seus, estacionamentos apinhados, lojas cheias de gente e de filas. Vendedores no seu limite, mães zanzando pressurosas, pais as seguindo com sacos na mão, literal e metaforicamente. Madrinhas disputando a última Miracle Baby a tapa, mulheres pequenas carregando nas costas motos elétricas que não caberão na mala do carro. É ou não é um retrato do Natal?

Como passei dos quarenta, já aprendi que todas as coisas têm mais de um sentido sempre. Basta se deslocar dois graus à esquerda e o ponto de vista muda a vista do ponto. Como eu me desloquei e pude ver o retrato de Natal de outro ângulo? O presente que minha filha Clara, de dois anos e meio, vem pedindo desde que os primeiros acordes de Jingles Bells começaram a tocar acabou em Campinas, onde estou para as festas com a família da Bi. Liga daqui, liga para lá, espera no telefone. Nada. Mil lojas de brinquedos e nenhuma imaginou que o caixa de supermercado das Superpoderosas iria bombar. Moral da história: viajei 100 km ida-e-volta até Jundiaí para cumprir o que Papai Noel prometera. Você, leitor, não tem idéia do prazer que eu tive ao por as mãos na caixa e ver aquelas meninas olhudinhas rindo para mim. Eu me senti criança de novo. A vendedora perguntou se era para mim.

Comprar presente para ver a alegria do filho, da mãe, do pai ou do irmão é motivação mais do que suficiente. Mas é isso que deve mover a compra: a alegria pelo e do outro. O mundo tem de ficar melhor no Natal. Não vale fazer igual a uma mulher que xingou a moça do caixa da loja de brinquedos porque ela, em vez de lançar a compra no crédito, lançou no débito. A mocinha ficou com olhos cheios d’água. Esse presente não vale. Ele serviu para humilhar,diminuir, deixar o mundo mais amargo. Não rola fazer as coisas se não forem motivadas pelo amor, pelo afeto. Tudo bem, leitor, pode dizer que estou meloso porque estou mesmo. Natal me deixa assim. Luzes piscantes e músicas de harpas servem para me lembrar que Natal é nascimento e que, portanto, é época de fazer nascer um outro eu, melhor e que alegre o mundo cinza.

Proponho o exercício da troca neste Natal. Troquemos presentes como nossas crianças. Vamos dar a elas Amazing Anandas, Pop Star Melodies, motos gigantes, bonecos do Ben 10 ou Wii’s. O que eles pedirem. E recebamos delas sua forma mais feliz de ver o mundo, sua confiança imediata no outro, seus sorrisos frouxos nas situações mais esdrúxulas, a sua capacidade de rir do mundo e, mais importante, de rir de si.

Aristóteles escreveu já faz um tempão: “Ninguém é dono da sua felicidade. Por isso, não entregue sua alegria, sua paz, sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém. Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja”. Só dos nossos, eu completo. Com perdão da aliteração, inove em 2009. Olhe-se de outro ângulo e perceba o que você nunca viu no espelho. Seja mais criança. O Natal é uma época excelente para isso.

Em chinês, o mesmo ideograma significa “crise” e “oportunidade”. O sentido sempre pode ser outro. Seja o sentido dos fatos, da vida, do Natal, de nós mesmos. Basta se deslocar dois graus à esquerda. Feliz Natal.

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domingo, 21 de dezembro de 2008

Acabei de ler: : "Outliers, Fora de Série", de Malcolm Gladwell


O que torna algumas pessoas capazes de atingir um sucesso tão extraordinário e peculiar a ponto de serem chamadas de "fora de série"?

Costumamos acreditar que trajetórias excepcionais, como a dos gênios que revolucionam o mundo dos negócios, das artes, das ciências e dos esportes, devem-se unicamente ao talento. Mas neste livro o autor tenta mostrar que o universo das personalidades brilhantes esconde uma lógica muito mais fascinante e complexa do que aparenta. Baseando-se na história de celebridades como Bill Gates, os Beatles e Mozart, Malcolm Gladwell mostra que ninguém se faz sozinho. Todos os que se destacam por uma atuação fenomenal são, invariavelmente, pessoas que se beneficiaram de oportunidades incríveis, vantagens ocultas e heranças culturais. Tiveram a chance de aprender, trabalhar duro e interagir com o mundo de uma forma singular. Esses são os indivíduos fora de série - os outliers.

Para Gladwell, mais importante do que entender como são essas pessoas é saber qual é sua cultura, a época em que nasceram, quem são seus amigos, sua família e o local de origem de seus antepassados, pois tudo isso exerce um impacto fundamental no padrão de qualidade das realizações humanas. E ele menciona a história de sua própria família como exemplo. Além disso, para se alcançar o nível de excelência em qualquer atividade são necessárias nada menos do que 10 mil horas de prática - o equivalente a três horas por dia (ou 20 horas por semana) de treinamento durante 10 anos. Aqui você saberá também de que maneira os legados culturais explicam questões interessantes, como o domínio que os asiáticos têm da matemática e o fato de o número de acidentes aéreos ser mais alto nos países onde as pessoas se encontram a uma distância muito grande do poder.

Gostei, ainda que às vezes seja excessivamente detalhista nos exemplos. Mas o argumento é interessante. Recomendo. Vale uma conversa na cantina da UFAM.

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sábado, 20 de dezembro de 2008

Música num sábado à noite...

No Media Player: Cheek to cheek, Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, clássica; Tema de Amor, Marisa Monte, suave como a voz de Marisa; As curvas da estrada de Santos, Paula Toller, música de Roberto na voz dos outros é mais bonita; Nossa canção, Vanessa da Mata, idem; Eu preciso te esquecer, Claudia Telles, música-balada das antigas; If you leave me now, Ive Mendes, bela roupagem para o clássico do Chicago e Velha infância, Tribalistas, velhas lembranças de tempos idos.

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Uma frase num sábado de dezembro

"O amor é um lugar estranho"
Lost in Translation

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Poesia numa sexta à noite

"Um Dia de Chuva. Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."
Fernando Pessoa

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