quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Contardo Calligaris

Contardo , hoje na Folha de São Paulo:

Dormindo com inimigos?


A paixão de Lindemberg era um argumento para que atiradores de elite apertassem o gatilho

COMO MUITOS pelo Brasil afora, assisti ao extenuante drama de Eloá Pimentel, 15, seqüestrada durante cem horas e, no fim, morta pelo ex-namorado, Lindemberg Alves Fernandes, 22, em Santo André, São Paulo.
Como muitos, achei absurda a decisão das autoridades, durante as negociações, de mandar de volta para o cativeiro a amiga de Eloá, Nayara -que por sorte se salvou, embora baleada no rosto. E descobri, consternado, que o Grupo de Ações Táticas Especiais não dispõe de microcâmeras que funcionem nem de escadas que alcancem uma janela do segundo andar.
Fora isso, uma frase cativou minha atenção. No sábado passado, Ana Cristina Pimentel, a mãe de Eloá, declarou a Britto Jr. (TV Record) que "a polícia teve muito tempo para matar" Lindemberg e que os policiais deveriam ter atirado nele muito antes do desfecho.
Lembrei-me de que alguém da PM -talvez o próprio coronel Félix (não consegui reencontrar a reportagem)- afirmara que os atiradores de elite tiveram várias ocasiões para matar o seqüestrador, mas a ordem de atirar não foi dada por se tratar de um seqüestro motivado por razões, digamos assim, não torpes.
Nada de assalto, extorsão etc. Lindemberg e Eloá tinham sido namorados, e era na exaltação de uma paixão amorosa (por doentia que fosse) que Lindemberg estava cometendo aquela loucura e ameaçando acabar com Eloá e, depois disso, matar-se.
Aparentemente, a PM pensou que os sentimentos de Lindemberg tornassem menos provável que ele passasse das ameaças aos atos.
Curiosamente, eu pensava exatamente o contrário: a paixão de Lindemberg por Eloá me parecia aumentar as possibilidades de um desfecho fatal e constituir um argumento para que os atiradores de elite apertassem o gatilho. Por quê?
Não sei se existem estatísticas comparando o desenlace dos seqüestros perpetrados por razões torpes ao dos que são motivados pelos malogros do amor (separações não aceitas, ciúmes, despeito da rejeição e por aí vai).
Mas imagine, por um instante, que Lindemberg fosse um assaltante qualquer: por acaso, ele entrou no apartamento dos Pimentel para roubar e aí ficou, com duas reféns, encurralado pela polícia. Sem dúvida, ele ameaçaria matar as adolescentes para negociar uma chance de fuga. No entanto, quando os policiais arrombassem a porta, sua maior preocupação seria a de salvar a pele; ele poderia instintivamente reagir atirando nos invasores (e seria crivado de balas) ou abrigar-se atrás de uma das adolescentes, usando-a como escudo numa última tentativa de defesa. Mas por que mataria as reféns? Para ser morto a tiros na hora? Ou, se não fosse morto, para aumentar o número de anos que passaria na cadeia?
Claro, as ações de um criminoso acuado não são necessariamente racionais. No paroxismo dos breves segundos da invasão, um seqüestrador qualquer poderia atirar em suas reféns, por exemplo, para se vingar da "traição" dos negociadores que, certamente, prometeram-lhe salvação e liberdade. Mas é apenas uma possibilidade, enquanto Lindemberg, como ele havia dito explicitamente à mãe de Eloá, viera com o propósito de "fazer uma besteira": matar Eloá e matar-se (quem sabe, um jeito de ficar com sua amada para sempre). Para ele, a urgência, na hora da invasão, seria (e foi mesmo) a de levar a cabo sua tarefa. Faltou-lhe apenas a coragem (ou o tempo) de se dar um tiro.
Em suma, paradoxo: justamente porque o seqüestro não tinha razões "torpes", os atiradores da PM deveriam ter sido liberados para atirar.
A exposição midiática do caso fez que o pai de Eloá, Everaldo Pereira dos Santos, fosse reconhecido pela polícia de Alagoas como um foragido, suspeito de vários crimes, entre os quais o de ter matado a ex-mulher, em 1992. Por intermédio de seu advogado, Santos declarou: "Jamais cometeria um crime bárbaro contra uma mulher que tanto amei". Faz sentido, não? E a PM paulistana pensou parecido: Lindemberg não mataria Eloá, que ele tanto amava.
A verdadeira paixão amorosa não é exatamente um "bom sentimento". O apaixonado acredita no objeto de amor (que, de fato, ele inventa) assim como, nos transtornos mais graves, um indivíduo acredita em suas alucinações. Com uma diferença: contrariamente ao alucinado, o apaixonado não consegue renunciar a uma visão que é para ele, às vezes, a prova única e indiscutível de que ele não está só no mundo e de que a vida e a morte fazem sentido.

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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sempre dá para mudar o fim...

Ana Carolina, falando por nós.

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Cecília Meireles









"Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?


E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão..."

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Viciado em Orkut

Uma piadinha para levantar o astral...

O menino era viciado em orkut. Cansada daquilo, um dia sua mãe o levou para o culto na igreja no domingo.
Chegando lá o pastor pergunta a ele:
- Rapaz, você aceita Jesus?
O menino responde rápido:
-Só se ele me mandar um scrap!

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Artigo Censurado

Pela primeira vez meu artigo foi censurado no jornal. É a força do poder simbólico. Quem mandou eu falar do vice-prefeito eleito... Vai, então, para os leitores do blog:

PARÁFRASES

Amazonino Mendes é o prefeito eleito de Manaus. Ao repetir o óbvio, gostaria de acenar para as paráfrases contidas nessa frase. O que está sendo dito ao se dizer que Amazonino ganhou?

Está sendo dito, entre outras coisas, que Serafim Corrêa perdeu. Serafim sai fortalecido para o futuro, mas inequivocadamente derrotado no presente, repetindo a história da sua eleição. Naquele 2004, não foi Serafim que levou, mas Amazonino que foi derrotado para sua rejeição. Em 2007, Serafim perdeu pela incapacidade de transformar a boa política em resultado eleitoral. Ainda que o discurso político não lhe permita falar em derrota, o que é compreensível, o prefeito foi vencido pela comunicação pífia no início da administração e por algumas escolhas políticas equivocadas quando das divergências internas de seu grupo. Registre-se que Serafim fez uma administração admirável do ponto de vista republicano: concurso, transparência, moralidade, bom uso do nosso dinheiro. Acusaram-no de lentidão, mas quando a coisa é feita direita é lenta mesmo. Sei porque participei de sua administração e lembro o quanto sofremos pelos trâmites demorados da legislação. Por esse prisma, aliás, espero que a administração do novo prefeito não seja tão rápida se o preço for o arrepio da lei.

Mais paráfrase: Ari Moutinho vai para a Câmara dos Deputados no lugar de Carlos Souza. Até quando a legislação brasileira vai permitir esses esquemas de acomodação de políticos sem mandatos ou que ainda devem esclarecimentos à justiça? Até quando ficaremos tentados a fazer trocadilhos de imunidade com impunidade? Quem ganha com isso, não sei. Mas quem perde somos nós, população.

Outra paráfrase que se escuta na frase: Carlos Souza vai ser prefeito por dois anos. Não precisa ser futurólogo para saber como caminha o xadrez político. Minha discordância com o futuro prefeito Souza é de visão de mundo e de sociedade. Não consigo pensar em usar o mundo cão como paradigma de ações. Quem pensa assim não consegue agir para reduzi-lo, pois perde o próprio referencial. Ao contrário: quanto pior, melhor. A miséria fortalece quem dela se sustenta. Ainda me queima a retina a cena de Souza e Sabino de braços dados com o bandido Paulinho Perneta, parecendo uma quadrilha. De São João, claro. Alguém que quer substituir a polícia e a justiça não me agrada com uma caneta tão pesada quanto à de prefeito na mão.

Um dado positivo: a oposição tão forte que se fez ao prefeito por ousar fazer uma política de outro modelo acabou por gerar uma sociedade mais atenta. Vamos esperar do Ministério Público a mesma vigilância. Vamos cobrar da imprensa os mesmos olhos de lince. No mundo midizatizado, promessas se registram. Para se ter mil creches é preciso fazer uma a cada um dia e meio. Quero meus 20% de desconto no IPTU. Vou cobrar o fim imediato do turno intermediário nas escolas e juro que vou morrer de inveja: quando fui subscretário o máximo que consiguimos em três anos foi reduzi-lo em 30%.

Meu desejo sincero é o de que o prefeito eleito conduza nossa cidade da melhor forma possível para a população. Um paráfrase positiva final: a Democracia funciona, a rotatividade faz parte. Quem venceu que administre. Quem perdeu que fiscalize. É assim.

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domingo, 26 de outubro de 2008

Luto Político


Pelo andar da carruagem das apurações, o prefeito Serafim não deve se reeleger. Como cidadão manauara, sinto muito e termino meu domingo em luto político. Quatro anos a minha cidade ficará nas mãos de um grupo pouco confiável. Minhas filhas moram aqui. Por isso, sinto mais ainda.

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sábado, 25 de outubro de 2008

Metáforas: vasos

Vaso Chinês

Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara, que ela carregava nas costas. Um dos vasos era rachado, e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada até a casa, enquanto o rachado chegava meio vazio. Por longo tempo a coisa foi em frente assim, com a senhora que chegava em casa com somente um vaso e meio de água. Naturalmente, o vaso perfeito estava muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer. Depois de dois anos, refletindo sobre a própria amarga derrota de ser 'rachado', o vaso falou com a senhora durante o caminho:

- Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho
me faz perder metade da água durante o caminho até sua casa...

A velhinha sorriu:

- Você reparou que lindas flores foram semeadas do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito, portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todo dia, enquanto a gente voltava, tu as regavas.

Por dois anos, recolho belíssimas flores para enfeitar a mesa deste lar. Se tu não fosses como és, eu não teria essas maravilhas enfeitando a minha casa. Cada um de nós tem o próprio limite. Mas o limite de cada um é que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante. É preciso aceitar cada um pelo que é. E descobrir o que tem de bom nele.

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Contardo Calligaris

Sou fã de carteirinha de Calligaris, que escreve às quintas na Folha de São Paulo. Reproduzo seu texto dessa semana:


A SEXUALIDADE DE QUEM GOVERNA


As fantasias que sustentam o desejo nos definem mais do que o gênero do parceiro

SERÁ QUE que a vida sexual de quem se candidata a governar é relevante para os eleitores? Há duas "escolas" de pensamento: a francesa e a dos EUA.
Para os franceses, em princípio, a vida amorosa e sexual dos governantes não tem relação com as qualidades morais que importam na vida pública. Portanto, é raro que, no debate político, apareçam "detalhes" privados (amantes, filhos fora do casamento etc.).
Nos EUA, ao contrário, a intimidade de governantes e candidatos é vasculhada. Talvez os norte-americanos sejam simplesmente mais moralistas do que os franceses. Ou talvez eles acreditem que uma vida privada libertina (ou não conforme a regra) prometa uma condução desregrada da coisa pública. Algo assim: quem não resiste à paixão (nem para compor o cartão-postal da campanha) colocará sua "tara" acima de seu dever.
É um enigma: os norte-americanos prezam a liberdade de cada um viver como ele bem entende, mas pedem que quem governa seja um exemplo de conformismo. E, em regra, o conformismo de quem governa (sobretudo se for só aparente) transforma-se em exigência de conformidade para todos.
O Brasil é outro enigma: a relevância política da vida amorosa e sexual dos governantes parece mínima, como se o público e o privado fossem domínios claramente distintos. Por outro lado, a esfera pública é brutalmente parasitada pelos interesses privados (corrupção, clientelismo).
Seja como for, nessa história, o que mais me impressiona é a ingenuidade com a qual é composto o "perfil" sexual e amoroso de candidatos e governantes. Nas campanhas eleitorais dos EUA, por exemplo, os candidatos levam consigo mulher e filhos; supõe-se que essa exibição valha como um atestado de "normalidade", enquanto, no máximo, ela indica qual é orientação sexual do candidato (e olhe lá) e qual sua aptidão para multiplicar-se.
Ora, se nossa vida sexual e amorosa diz algo sobre quem somos, não é graças à nossa orientação ou à nossa capacidade de procriar. Do lado amoroso, seria mais significativo considerar qual é o respeito pela singularidade do parceiro, qual a virulência da idealização ou do ciúme, qual a parte de narcisismo etc. Do lado sexual, muito mais que o gênero do parceiro escolhido (ou exibido), o que define um indivíduo são as fantasias (implícitas ou explícitas, realizadas ou não) que sustentam seu desejo.
Ou seja, se quisesse conhecer a vida sexual e amorosa de um candidato, precisaria saber não tanto quem ele ama, mas qual é seu jeito de amar, e não tanto com quem, mas COMO ele "transa" - ou seja, o que o excita, quais pensamentos, quais situações, quais palavras. Também me perguntaria se o candidato tem mesmo uma vida sexual (com que freqüência e intensidade) e se ele aceita sua própria sexualidade ou a vive com nojo ou asco.
Tudo isso, caso eu quisesse saber um mínimo sobre a vida amorosa e sexual de um candidato. Mas será que isso me seria útil na hora de votar? E de que forma?
Michel Foucault talvez seja o pensador que melhor desmascarou e contestou os mecanismos do poder moderno (isso, apesar de sua histórica burrada ao avaliar positivamente o regime dos aiatolás no Irã). Como ele mesmo revelava, sua sexualidade se alimentava em fantasias e práticas sadomasoquistas. Pergunta: sua perspicácia e seu engajamento libertários se deram apesar de suas fantasias sexuais ou por causa delas? Não sei.
A pergunta não é urgente: infelizmente, no estado atual de nossa sociedade, é improvável que candidatos e candidatas a cargos de governo falem publicamente do que importa em sua vida sexual e amorosa.
Fico apenas com esta idéia: em geral, um governante que aceita e vive suas próprias fantasias é, para mim, preferível a outro que as reprime, pois a falta de indulgência consigo mesmo promete rigidez hipócrita para com os outros. Também, o exercício da sexualidade introduz em todas as fantasias uma descontinuidade: a "brincadeira" termina quando acaba a relação sexual. Voltando ao exemplo de Foucault, quem goza sexualmente com os apetrechos do sadomasoquismo dificilmente consegue não achar risível a face sisuda do poder.
Mais um ponto: salvo ilegalidade, em matéria de sexo, minha regra geral é que só o interessado tem o direito de falar. A voz de um terceiro sempre ressoa como uma denúncia que faz apelo ao preconceito -ou seja, certamente não ao que tem de melhor em nós.

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O Correto e o Justo

Dois juízes encontram-se no estacionamento de um motel e reparam que cada um estava com a mulher do outro. Após alguns instantes de 'saia justa', em tom solene e respeitoso, um diz ao outro:
- Nobre colega, creio eu que o CORRETO seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Excelência no seu.
Ao que o outro respondeu:
- Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o CORRETO. No entanto, não seria JUSTO, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos entrando.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Comparação


Recebi isso por e-mail e achei genial.


Comparação.

Denúncias de Corrupção.

De dois candidatos a prefeito, você vai escolher um.

Um teve vários aliados envolvidos no escândalo das licitações no Amazonas, em 2004.

O outro...

Um é acusado de manter empresas, jornais, rádios e supermercados no nome de amigos "laranjas".

O outro...

Um foi denunciado pelo MPF por corrupção passiva, no escândalo da compra de geradores da CEAM.

O outro...

Um virou manchete nacional pela Mansão do Tarumã, avaliada em R$ 5 milhões, e cujo valor declarou ser R$ 300 mil.

O outro...

Um foi acusado de pagar R$ 200 mil por cada voto pela reeleição de FHC, em 1997.

O outro...

Um é o Amazonino, o outro... é o outro.

Vote no outro. Vote na honestidade. Vote na honradez. Vote SERAFIM - 40.

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Mais Quintana...

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!



Mario Quintana - A Cor do Invisível

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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Fugacidade

Para os que procrastinam as belezas da vida, uma dose de Mário Quintana.

"O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."

Mário Quintana

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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Aniversário do meu pai

Hoje é aniversário do meu pai. Posto um texto que escrevi pra ele, no dia dos pais. Te amo, meu querido, meu velho, meu amigo.


PAI

Que me desculpem os outros filhos, mas o meu pai é o melhor pai do mundo. Podem discordar, mas continuarei achando. É porque vocês não são filhos do meu pai. Se fossem saberiam do que falo.

Meu pai tem um coração maior do que amor pelo seu Botafogo. Jamais conhecerei alguém tão bondoso. Seu corpo é feito de coronárias: um grande coração no qual circula bondade.

Do seu jeito pouco falante para essas coisas, meu pai sempre desejou, como na música, ver seus filhos pisando firme, sorrindo alto, cantando livres. Nós, cada um a seu modo, pisamos firme porque tivemos sua mão a nos segurar em vários momentos em que mais precisávamos. E não a tivemos na hora em que, paciente e sabiamente, ele e a mãe saiam de cena para que pudéssemos crescer. Sorrimos todos, paizinho, bem alto. Somos uma família feliz. Cantamos livres, cada um no seu tom, as músicas de respeito ao próximo, de sacação do mundo.

Pai, obrigado por mostrar que filho é filho. E o que importa é a felicidade dele. Essa lição eu vou levar para a vida da Ana Clara e da Marina. Não esqueço, paizinho, de quando tu me esperavas no carro, enquanto eu estudava, para que eu não voltasse de ônibus tarde. Quanto amor e dedicação. Que pai invejável! Que pai lindo!

Agradeço a meu pai pela torcida nas grandes e pequenas coisas. Nos campeonatos de futebol, lá estava seu Jefferson atrás do gol com a camisa do time. Nas gincanas, seu Jefferson corria atrás de ouriço de castanha, objeto da prova, como se fosse sua vida. E era. Eram seus filhos que estavam ali. Nos jogos de futebol de mesa, seus gritos de gol ao ver a bola bater na rede dos adversários rasgavam a sala. Torcia para fazer gol só para ver meu pai vibrar. Era melhor que próprio gol. Nas vitórias, seu punho cerrado no ar, como a dizer “eu sabia! Esse é o meu filho!”. Guardo com carinho seus olhos gordos de alegria quando falei ter sido aprovado no doutorado na Unicamp. O orgulho de missão cumprida, a despeito das dificuldades dessa vida que tanto o maltratou. Mas as dificuldades foram, sabiamente, transformadas em lições de vida e não em amargura.

Fico fascinado com sua capacidade de saber o nome de todas as repórteres bonitas da tv. Fico encantado com suas soluções para situações nas quais todos jogariam a toalha facilmente. Fico deslumbrado com seu pensamento rápido, que em dobradinha com seu senso de humor, fazem a vida mais feliz.

Aprendi o amor recebido do meu pai para dar a duas coisinhas que dependem de mim, frágeis, inseguras, começando a vida. Que minhas filhas tenham o privilégio de brincar de carneirinho-carneirinho contigo. Se eu conseguir ser dez por cento seu Jefferson nesse papel de pai, minhas meninas vão viver no mundo pisando firme, cantando alto e sorrindo livre. Fica aqui por muito tempo, meu pai, meu querido, meu velho, meu amigo. Ainda há muito mais a aprender contigo.

Eu te amo, pai. E vou te dizer todos os dias até quando Deus disser que está na hora do nosso vôo solo. Aí eu e minhas filhas, olhando para a estrela mais brilhante do céu, diremos, dedinhos apontados para cima, “eu te amo, pai”, “nos te amamos, vovô”. E nos encontraremos em sonhos. Do filho que os outros filhos dizem, ingrata e injustamente, ser o preferido. Dinho.



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domingo, 19 de outubro de 2008

Soneto da Ana Clara

Este é o da Clara.

ANA CLARA

Minha alegria, és o meu futuro
Tu que habitas da tua mãe o ventre
Com tua imagem toda dor eu curo
Felicidade chega e eu digo: entre!

Por ti transponho o mais alto muro
Por ti repouso meu coração dentre
As agonias, tua presença centre
Tua clara luz sobre meu mundo escuro

O teu relevo alto me anuncia
Um som que em breve a boca balbucia
Em incompreensíveis sílabas de amor

E me amorteces toda e qualquer dor
Pois tua vinda, filha, prenuncia
O meu jardim em minha primeira flor

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Soneto da Marina

Gosto muito de escrever sonetos. Este eu fiz para a Marina, minha caçula.

SONETO PARA A SEGUNDA FILHA

Soneto para a segunda filha (01.12.2006)

Tu, que chegas sem nenhum alarde
Vens de repente numa alquimia
No meio do dia, era ainda à tarde,
A tua irmã ainda nem dormia

Tu, que te apresentas para ser amada
Por conta própria cruzaste muralhas
Chegou bem de mansinho e bem calada
E no ventre da tua mãe te agasalhas

Tu, pequena coisa ousada e destemida
Veio rasgando espaço atrás de vida
Sabes que tu terás senão amor

E trazes na tua vinda aguerrida
Escrito nas pétalas da margarida
“Do teu jardim, pai, sou a segunda flor”

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Eu no tempo

Olha quão interessante eu teria sido em diversas épocas. O site que fez o túnel do tempo é o http://www.yearbookyourself.com.

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sábado, 18 de outubro de 2008

A cintilante linguagem das crianças

Diálogo entre a Bia, minha mulher, e a Ana Clara, minha mais velha, de dois anos e três meses:

BIA - "Filha, a gente tem de se vestir para ir para a festa do dia dos pais".
CLARA, depois de refletir sobre a frase - "Mãe, eu tenho dois pais?"

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Do fundo do baú de novo

sMais um texto dos antigos. Um meio fora do meu estilo, mas é meu. Eu juro.

O DIA DA CAÇA

Aproveitou que tinha que pagar a casa no banco que ficava no shopping e resolveu passear. Entrou pela porta próximo à papelaria e, pasmo, se deu conta do quanto é amargo ao ver duas mulheres se espocando de rir, quase às lágrimas de cartões do Garfield para todas as ocasiões. Como poderiam rir daquilo? Tudo bem, vá lá que se ria de cartões engraçados, mas daquele jeito ao frouxo?! Aproximou-se para confirmar as suspeitas e confirmou: era amargo mesmo. Saiu da papelaria e olhou no relógio. Tinha que buscar a mulher na casa da mãe. Dela, lógico.

Passou em frente à Drugstore, uma drograria de importados, e percebeu uma gorda vomitando ódio e humilhação em cima da vendedora que tinha falado bruti, dissilabicamente e sem sotaque, para o desodorante Brut, que ela, a gorda, usava. Talvez o dela fosse bruti mesmo. Cheirou alguns perfumes franceses de 2a. linha (alternativos, para os politicamente corretos), imitações que traziam na caixa o nome dos imitados. Não perdeu a oportunidade de perfumar-se com as amostras até os cotovelos e saber que Eternally é o primo pobre do Eternity. Ao ver a cena, ele pensou em rir, mas lembrou que na infância usou calção Adibas para fazer educação física e mudou de idéia e de rumo.

Loja de discos. Parou e olhou o relógio: tinha que apanhar a mulher. Tinha tempo. “Pois não, posso ajudá-lo?”, perguntou a vendedora, mal sabendo que ele detestava ser cerceado em sua liberdade de olhar as coisas sem ninguém fungando em seu cangote, vendedor atrás de comissão, urubu atrás da carniça. Ignorou e disse, dispensando-a: “Só estou olhando”, frase clássica de quem detesta hienas sedentas por comissões. Percorreu as promoções, olhando CD a CD. Teco-teco-teco-truuuu. (puxa CD, puxa CD, puxa CD, empurra os CD’s de volta). Tinha uns a nove paus. Comprou três. Música clássica. Não gostava de música clássica, mas pelo menos engordara sua coleção de CD’s (o número de CD’s na coleção é um dos parâmetros do nível social entre os pequenos burgueses). Saiu, não sem antes dar uma olhadinha para vendedora com um ar triunfante de quem escolheu, pegou, pagou, enfim, fez tudo sozinho, sem ajuda.

Olhou o relógio. Tinha que recolher a esposa. Tinha tempo. Parou em frente à loja de calçados. Viu um doquissaide beleza. Viu também um vendedor vindo. Fuzilou: “Só estou olhando”. Viu o preço. Pensou no aparelho de ar-condicionado do quarto que precisava consertar e nas peças do carros para pagar. Esqueceu o doqui. Podia comprar um Le Chaval na Riachuelo, a prazo, ou um Caribu, hecho en Venezuela, nas Lojas Americanas, parcelado em dez vezes. Resolveu descer. A escada rolante estava subindo. Teve que andar até o outro lado para descer.

Parou na banca. Aproveitou que a mulher não estava ali (pois tinha que pegá-la em breve), olhou quem era a capa de Playboy, VIP, Sexy, Newsweek e Time. Tinha que disfarçar. Com elegância poliglota, lógico. Riu de revistas como Gula, para glutões, Fluir para garotões. Percebeu que uma gorda ria da Info, a revista sobre informática (seu hobby) que ele estava folheando. Era a gorda da drogaria. Sem perceberm, se vingara. Olhou o relógio. Tinha que catar a patroa. Desceu as escadas. A de descida não estava rolante. Resmungou algo e desceu. Um garotão riu e disse: “que coroa mais boko-moko, meu!”. Vingança dos garotões.

Fixou os olhos, como que encantado, num som PIONEER NSX HIGH POWER 2000 MPO WITH BBE. Na noite anterior tinha sonhado com um som assim. Tinha quase certeza que era um PIONEER NSX HIGH POWER 2000 MPO WITH BBE. Chegou tão perto do vidro que fez bafinho. Recuou. Lembrou das peças do carro. Tinha que continuar com seu CD player que, para abrir, precisa usar uma caneta para puxar a gaveta. Olhou o relógio. Tinha que pegar a esposa. Tinha tempo. Tinha que pagar a casa no banco. Fora ali para isso.

Entrou no banco, entrou na fila, entrou bem. Tinha um só caixa para uma fila de 25 pessoas fora os velhinhos e três caixas para os clientes especiais. Não se sentiu especial. Ficou deprimido. O cara da frente falou: “É um desrespeito!”, a mulher de trás (já havia gente atrás para seu consolo) disse: “Vou à gerência!”. “Isso!”, pensou, voltando-se para solidarizar-se com a mulher. Era a gorda. Passou a gostar da gorda. Começou a rolar um sentimento. Olhou o relógio. Tinha que buscar a esposa na casa da sogra com hora marcada. Já não tinha tanto tempo assim. “Próximo”, gritou a caixa, não lhe tratando nem um pouco como o próximo do preceito cristão. Pagou. Saiu. Mas antes, olhou um a um os que estavam na fila como quem dizia: “Fiquem aí que eu, o bom, já vou, galera!”. Apenas aquele momento perverso de que somos acometidos de vez em quando naquele sadismo de fila. Olhou o relógio. O tempo estava escasso. Tinha que pegar a esposa.

Ia entrar na livraria, lembrou-se do ar-condicionado. Deu meia-volta. Devia subir e pegar o carro no estacionamento. A única escada rolante que rolava agora estava descendo. Lusitanamente descendo. Resmungou algo e subiu. Olhou de novo a garota da capa, tranqüilo por saber que seu primo já tinha comprado. Ele, o primo, não perdia uma.

Olhou o relógio. Pensou em fazer um lanche. Uma coxinha e uma coca. Olhou o relógio. Pensou: “Não vai dar. Não vou deixar meu amorzinho esperando. Tenho consideração com minha general!”. Ficou orgulhoso do amor que nutria por sua cara-metade, por seu outro eu.

Caminhou para saída. Olhou o relógio. Tava quase na hora. Tinha que pegar a esposa. Abriu a porta do shopping. Entendeu, na pele, o conceito abstrato de choque térmico das aulas de química. O bafo quente de fora e frio polar de dentro brigavam numa pororoca invisível. Os óculos embaçaram. Ficou com medo que a boca entortasse, igual a do Ayrton Senna. O carro estava mais quente que o sol no verão. Suou. Ligou o ar-condicionado do carro. Mas não gelou. Estava sem gás. Tinha de escolher: ou dirigia ou dormia no friozinho. Preferiu dormir. Olhou o relógio. Estava na hora. Saiu do shopping.

Chegou na casa da sogra. Buzinou, assobiou o som característico (cada casal tem seu código assobiado). Ninguém. Surge Paula Toller, a empregada (ela nasceu na época do New Wave, daí o nome), que lhe vê e diz: “Ah, é senhor... Ela saiu agorinha, agorinha. Disse pro senhor esperar”. Lembrou da coxinha.

Esperou. Esperou. Esperou. E então, sem opção alguma, esperou ainda mais. A esposa, que ele tinha que apanhar, chegou. Abraçou-lhe o pescoço e beijou-lhe. Parou. Afastou-se. Perguntou: “De quem é esse perfume? E pra quem são esses CD’s de música clássica que eu sei que tu não gostas? Tu tens outra!!”, decretou. Partiu como uma louca para cima dele que, sem poder explicar, correu em direção ao carro. Quando estava a caminho, com a esposa, a mãe, o pequinês neurótico, todos correndo atrás e latindo, ouviu o barulho de um carro batendo em outro. “Só pode ser no meu!”, pensou para completar. Era. A motorista da Brasília 79 perdera a direção e entrara no dele. Literal e metaforicamente. Parecia machucada. Que dia! Ainda teve que socorrer a gorda.

20 de dezembro de 2003

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Dia dos professores ainda...

Hoje comemoramos o dia dos professores no Centro de Estudos de Línguas - CEL -, da Universidade do Amazonas, coordenado por mim. Foi muito bom sentir o astral dos professores do Centro, formado em sua maioria por alunos dos cursos de Letras/Línguas Estrangeiras. Que essa moçada aprenda a curtir as belezas da profissão para melhor lidar com os seus reveses. Tivemos um almoço e um momento de descontração com a entrega de uma lembrança do Projeto para cada um. Na foto, uma turma em plena aula. Valeu, gente boa!

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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Do fundo do baú

Estou revisitando alguns textos antigos. Este, escrito em julho de 2002, fala como amor e educação são parecidos. Espero que gostem.

Amor e Educação: dimensões compartilhadas

Durante um curso chamado “Educação, Comunicação e Tecnologia”, a turma e eu levantamos alguns temas que são sempre recorrentes quando se discute educação. Foram seis temas que iam e vinham durante o curso. O interessante da coisa toda : esses temas ou dimensões, me parece, podem ser considerados também no âmbito do amor.

É interessante notar como o processo educacional, cheio de apaixonantes momentos, pode nos ensinar a pensar no amor e nas paixões, responsáveis pela educação de nosso coração para a vida. Ou talvez seja o contrário: as paixões e o amor nos ajudam a entender algumas dimensões envolvidas no processo pedagógico. Bom, na verdade há uma certa sobreposição entre o processo educacional e o processamento afetivo. Se você é professor e amou intensamente entenderá esse texto mais facilmente. Mas vou tentar explicar melhor a idéia e ofereço essa explicação a meus alunos e aos meus amores pelas partes que lhes cabem.

O primeiro item é o planejamento. Em qualquer situação o planejamento é essencial. Concordamos que o planejamento deve ser flexível a ponto de poder responder e adequar-se às demandas contingentes, ao não previsto. Não se pode desconsiderar o dinamismo envolvido na questão. Concordamos igualmente quesituações em que nós até não planejamos e as coisas fluem muito bem, mas que esses casos são exceção à regra. São casos. São casos.

Assim, manter um planejamento rígido e fixo, sem abertura para as contingências, pode levar à atrofia pedagógica. Ou ao engasgo amoroso. Para poder planejar, no entanto, é preciso definir alguns parâmetros a respeito do que se quer enquanto professor, sobre o que se pretende de nossos alunos, sobre o que se entende por educação. E também sobre o amor, a relação e as expectativas em comum. Nada rígido. Bem, quase nada... São somente princípios. Princípios que nortearão nossas atitudes político-pedagógicas e, claro, afetivas.

Definir parâmetros e postular princípios são ações que ajudam a nos colocar no rumo norte. Aliás, decidir se queremos o rumo norte faz parte também desse próprio processo de definição. É preciso decidir sempre. A decisão é tão constitutiva de nossas vidas que esquecemos que a exercemos 24 horas por dia. Que horas acordar? O que tomar no café? Que roupa vestir? O quero fazer com minha sala de aula? Corto ou não corto o cabelo? O que meu aluno deseja? Qual perfume uso? Qual meu conceito de educação? Ligo ou não ligo para ela? Decisões. Políticas e pedagógicas na escola. Afetivas e sentimentais no amor. Decidir, no entanto, envolve não aceitar decisões prontas e postas por outros, decisões mcdonaldizadas, por assim dizer. É necessário ter uma certa incredulidade em relação ao que vem pronto. E isso, de pronto, nos leva ao terceiro ponto.

O problema de qualquer receita é que ela esquece a singularidade. A receita é uma grande abstração totalizante. É uma metanarrativa que se como sendo capaz de explicar e dar conta de todas as situações. Se funcionou ali, que garantias teremos quefuncionar aqui? Até porqueaqui” e “alisão palavras diferentes, como também são diferentes os contextos de implementação. Tudo bem que há similaridades que podem ser utilizadas como parâmetros, generalizações que podem ser úteis naquela hora de cima em que é preciso definir algumas cositas. Mas é preciso ser antropofágico (no sentido modernista) com as idéias externas: comê-las, degluti-las e reinventá-las, expurgando o que pode ser nocivo. Não é porque todo mundo faz assim que eu tenho que fazer também. Não deve haver essa relação direta, simplista e simplória. Posso até fazer o que os outros estão fazendo, mas me permita conhecer primeiro para eu poder então avaliar e decidir se dá, se rola. Por isso falo de incredulidade e não de ceticismo. Enquanto a primeiro permite a dúvida, o segundo abdica de perguntar. Há uma diferença enorme. Que relação pedagógica se sustenta sem o exercício da dúvida permanente? Que relação afetiva se sustenta na crença de uma certeza absoluta? Ambas são, a meu ver, meros jogos de faz-de-conta que mais cedo ou mais tarde arrebentam e nos arrebentam , enquanto educadores e enquanto amantes. É imperativo duvidar permanentemente. E antropofagizar as receitas alheias. Para isso, temos de ter instrumental, ter as ferramentas que nos permitam melhor trabalhar o real.

Sem instrumentos e conhecimento nem o melhor dos médico salva vidas. Só se ele for o McGyver (pesquisem, jovens!). Como poderá um professor planejar e tomar decisões, ser incrédulo aos dados que alguém lhe impõem, duvidar da dadidade de um dado, sem que ele conheça minimamente os fatos com os quais lida, sem que tenha qualificação profissional? Como pode alguém que ama decidir o que quer (baseado em expectativas e planos) e não aceitar modelos de amores, como as cartas dos livros da Ediouro, sem que tenha amado e vivido intensamente amores, novos e diferentes? A qualificação continuada do profissional da educação é imprescindível para a educação. É necessário começar do zero, sem experiência, de certo, como em todo começo. Mas é igualmente preciso buscar mais e não parar nunca, como as águas do Rio Negro que correm incansáveis. Amar é imprescindível para o amor. Nãopara parar . Mais do que perder o bonde da história, quando paramos somos atropelados por ele. É através da qualificação e do amor contínuo e continuado que se acessa a informação sobre o fenômeno imediato e se pode decidir que informação é ou não significativa para nosso aluno. Ou para nossa vida afetiva.

Qualificar a informação se apresenta, assim, como o quinto ponto. A escola não se sustenta mais no paradigma da transmissão de informação. Informação aos montes, flanando sobre nossas cabeças. Basta esticar a mão e pegar. A questão agora é aprender a processar essas informações soltas, interligá-las, achar o movimento de relação e produzir informações novas. Dessa forma, da reprodução se passa à produção. Esse agir sobre a informação é complementar ao qualificar. E é, sem dúvida, um agir sempre provisório, que deve ser sempre renovado, tendo em vista a citada dinâmica dos fatos sociais e afetivos. Se parar a informação, o fato, no tempo e no espaço, ela fatalmente caducará, ficará chata e obsoleta. Tornar-se-á anacrônica, dispensável e não-significativa. Se se perder o tempo certo, o timing desse ajuste permanentemente necessário, se perde irreversivelmente o fato enquanto objeto de prazer, enquanto elemento constitutivo de qualquer relação. Pedagógica ou afetiva. é preciso renascer, pois se se perde o prazer é preciso reconhecer que haverá um luto a ser curtido, para que haja nova gênese.

E é o prazer a última de nossas dimensões. Nossa escola está carente de prazer, de paixão. Nosso aluno vai arrastado para a sala de aula, pois não absolutamente nenhuma significação no ato de estar em um lugar que não lhe proporciona desejo. O simples desejo de estar ali e fazer parte. O prazer de problematizar suas questões fica quase sempre de fora. E sem prazer nãogozo, sem gozo nãorealização subjetiva, dizia o velho Freud.

Nós, professores, fazemos questão muitas vezes de funcionar como castradores do prazer daqueles que deveríamos seduzir, fazer delirar a ponto de caírem extasiados, suspirando em falsete, sem fôlego e com arfadas, clamando por água ou qualquer líquido que lhes minimize a hipoglicemia causada pelo esforço da prática do gozo gozado. Que relação sobrevive sem se querer estar por perto física ou mentalmente? Mais além: que relação se sustenta sem que haja a vontade de querer se sentir incluído, dentro mesmo da relação, vivê-la intensamente? Que relação pode ser produtiva e significativa quando a indiferença impera, quando a razão de ser e estar fenece? O aluno evadido é um sintoma de falha na missão do prazer contínuo. O amor evadido também.

Resumindo: devemos planejar de forma plástica e flexível. Essa flexibilidade, no entanto, deverá levar em conta (porque nunca dará conta) os limites estabelecidos nos princípios e parâmetros valorativos, filosóficos ou afetivos que regem a situação. É preciso ter cuidado para não tensioná-los a ponto de uma ruptura irreversível, que force um recomeço, num desperdício de investimento seja de que natureza for. Para isso se faz necessário ter acesso às informações. de posse delas, no momento certo, os agentes do jogo (pedagógico ou amoroso) podem redimensionar a situação, agindo sobre essa informação. Se houver a possibilidade da ação, certamente haverá a produção de informações novas, haverá a feitura de situações não pensadas antes, que podem até surpreender seus próprios agentes e adjacentes. Mas tudo isso não vale nada se se perder o timing ou se não houver mais prazer compartilhado. O prazer é duplo. Tem de ser duplo. Em sendo individual, o outro se vai, se esvai. Revolta-se e não volta.

É essa a complexidade da educação. É essa a singularidade do amor. Elas não são atividades para os biqueiros, mas para profissionais, para aqueles que têm no sangue a paixão que move, que desloca, que movimenta.

Caso você tenha um problema em sua sala de aula ou em um relacionamento afetivo, procure os sintomas, verifique, indague. Muito provavelmente uma dessas dimensões está capenga, está falhando e pode num piscar de olhos botar tudo a perder. O diagnóstico tem de ser rápido e preciso, como os dedos ao piano em uma peça de Bach. Cazuzamente, o tempo não pára. Ele é inquieto. As coisas correm. E nos deixam para trás. Não se pode perder a noção de que tudo isso está interligado. Que o menor movimento em uma dessas questões afeta seu todo. Elas são solidárias entre si.

E finalizo, então, trazendo o princípio de solidariedade proposto por Che Guevara, que endureceu, mas sabiamente jamais perdeu a ternura: “Toda lágrima que se derramar no mundo também é minha lágrima; toda ferida que esteja num corpo qualquer, no mais longínquo continente, está na minha pele e toda opressão que uma pessoa humana, na última caverna do mundo, possa sofrer é minha opressão”. Assim é a teia que une as dimensões pedagógicas. Assim é a tessitura das dimensões afetivas. Nãopara segmentar sem ensangüentar. Simplesmente não dá.


08 de julho de 2002

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